Novo conhecimento, nova aprendizagem e criação de valor (O fio de Ariana)
13 Jan 2006.   123770 visits
Authors
Roberto Carneiro, Dean, Institute for Distance Learning; Professor, School of Human Sciences, Catholic University of Portugal
Este artigo está disponível em 19 línguas. Por favor, escolha a sua opçao. "Vivemos em plena era de transição, numa era na qual o domínio do conhecimento e das novas ferramentas técnicas detém um papel essencial. Tanto o futuro dos sistemas educativos como o das empresas dependerá da capacidade de gerir eficazmente esse conhecimento, o que implica uma gestão competente das novas tecnologias."
O conceito de aprendizagem está a ser totalmente repensado com base num modelo diferente, dando origem a um novo tipo de aprendizagem possível a todas as idades, em todos os lugares e durante períodos de tempo indefinidos. Neste artigo, Roberto Carneiro fala da incerteza nascida desta transição, sobretudo devido à utilização das novas tecnologias na criação de conhecimento, e explica como os processos de aprendizagem e de educação, baseados numa inovação permanente graças às novas ferramentas tecnológicas, são a chave da sobrevivência.

A Harvard Business Review (HBR), revista internacionalmente reconhecida como referência prioritária no estudo dos contextos empresariais, distingue seis etapas sucessivas no percurso que marcou o pensamento gestionário das últimas décadas1:

  • Gestão Científica (~1922 a ~1932)
  • Regulação Governamental (~1932 a ~1946)
  • Marketing e Diversificação (~1946 a ~ 1960)
  • Estratégia e Mudança Social (~1960 a ~ 1972)
  • Desafio Competitivo e Reestruturação (~ 1972 a ~ 1988)
  • Globalização e Conhecimento (~1988 a ~ ?)

Ora, se o conhecimento é, consensualmente, o motor actual das economias o seu combustível é a aprendizagem. Por isso, a aprendizagem ao longo da vida surge como desafio maior do novo século tanto na vertente das pessoas como na das organizações (organizações aprendentes).

Acresce que a cadeia de valor dados-informação-conhecimento- aprendizagem carece de um último elo, aquele que é o efectivo produtor de riqueza (pessoal ou organizacional): a criação de sentido2.

O conhecimento adquire, pois, novos matizes: é polissémico, rege-se por cânones não fragmentários, é subjectivamente construído ao invés de objectivamente materializado, a sua competitividade reside no corpus tácito de saberes que são fruto da experiência. A gestão do conhecimento é indiscernível das pessoas que o criam, enriquecem, difundem e agregam valor a partir da utilidade dos saberes.

A aprendizagem sofre também uma intensa mutação. No que respeita a pessoas a nova aprendizagem tem lugar em qualquer idade, em qualquer lugar, e em qualquer tempo. No âmbito organizacional a gestão estratégica elege as empresas ditas “biológicas”, isto é aquelas que aprendem por evolução e adaptação (por oposição às organizações “mecânicas” que se limitam a repetir actos do passado). Neste novo figurino empresarial o espírito de coesão, o valor do capital social, as redes de colaboração, as relações de confiança e as comunidades de prática são as alavancas essenciais ao seu desenvolvimento. Para a nova aprendizagem, individual ou organizacional, as pessoas voltam a ocupar o lugar central.

Neste contexto o grande tema de estudo e de debate para o novo século será o da Gestão de Pessoas e de Comunidades.

Na verdade, as organizações são feitas de pessoas “sentipensantes” (razão e coração, intelecto e emoção) que vivem em comunidades de propósito e de sentido, uma vez que esta é a verdadeira e principal alavanca de criação de valor, de produção de riqueza e de progresso das nações: só transformamos em conhecimento a informação que integramos em padrões congruentes e só aprendemos verdadeiramente o que faz sentido.

O capital intelectual3 que se aponta como motor das economias actuais é, por conseguinte, a resultante de uma combinação sábia de capital humano e de capital estrutural, a qual é capaz de potenciar e de gerar valor para a organização. As novas cadeias e redes de valor, fonte maior de riqueza e de competitividade, assentam nos saberes e competências das pessoas, por um lado, e na eficácia das organizações em alinhar esses recursos intangíveis para inovar e diferenciar da concorrência, por outro.

Não espantará, pois, que o governo de Singapura, país que lidera o mundo numa grande maioria dos testes padronizados de conhecimentos promovidos por organizações internacionais, estruture a sua nova estratégia de desenvolvimento em torno de 4 núcleos fundamentais de aprendizagens 4:

  • Capital de Conhecimento – o currículo escolar é reduzido em 20% para permitir aos alunos a exploração da resolução de problemas complexos e interedisciplinares.
  • Capital de Imaginação – consistindo na promoção de novos ecossistemas “amigos” da inovação e do empreendorismo.
  • Capital Emocional – visando a criação de condições de estabilidade de espírito e de tranquilidade capaz de reter os melhores quadros e o melhor capital internacional.
  • Capital Social – orientado para a empregabilidade sustentável e a densificação das redes comunitárias de base.

Vivemos um tempo novo, que é simultaneamente complexo e desafiante. Este novo tempo, a exemplo do que acontece desde há pelo menos 250 anos, é catapultado pela tecnologia.

Carlota Pérez escreve com forte sedução sobre as lições a retirar das “regularidades históricas” 5 . A autora revela, a partir da sua investigação sobre as revoluções tecnológicas ocorridas nos últimos 250 anos, que cada novo tempo económico, vem catapultado por saltos tecnológicos que emergem com uma dupla manifestação:

  1. O surgimento de potentes clusters de novos produtos e serviços, e bem assim de novas redes infraestruturais.
  2. A afirmação de um novo paradigma tecno-económico caracterizado por: novas tecnologias genéricas e de espectro amplo, novos princípios organizacionais, diferentes modelos de negócio, e infraestruturas facilitadoras de baixo custo (indutoras de saltos quânticos de produtividade).

Segundo Carlota Pérez a humanidade encontra-se, actualmente, no “ponto de viragem” de uma nova revolução tecnológica. Ao período de instalação das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) que teve lugar nos últimos 30 anos – com o seu cortejo de “destruição criativa” e de generalização de um novo paradigma social, a Sociedade da Informação e do Conhecimento – pode seguir-se um tempo de implementação e de florescimento do pleno potencial do novo paradigma triunfante. Na análise da investigadora, o período intercalar em que nos encontramos – a “viragem” – seria marcado por instabilidade, incerteza, fim de “bolhas especulativas”, e recomposição institucional.

A confirmar-se esta interpretação, as nossas “vetustas” instituições – como a escola, as universidades, os governos e as próprias empresas – estarão actualmente sujeitas à pressão dos desafios inadiáveis de ajustamento estrutural e de reforma alargada.

A criação de novidade em matéria de conhecimento e de aprendizagem depende da forma como as pessoas souberem inovar, gerir, trabalhar, comunicar e criar valor com as novas tecnologias.

O e-Learning e o b-Learning são hoje portentosas ferramentas para potenciar o valor das pessoas e para acelerar a aprendizagem e a inovação no seio das organizações. Os novos conhecimentos e as novas aprendizagens, intensamente propiciados pelas novas tecnologias comunicacionais, apresentam-se como o fio condutor que permite encontrar uma saída para a vertigem da mudança que se abate sobre nós.

Por isso, mais do que visões segmentadas da questão, conotadas com esta ou aquela tecnologia, aquilo que emerge é um grande desafio de repensar toda a aprendizagem segundo um diferente paradigma, ou seja, pensar em termos de New Learning.

Aprendemos na velha mitologia grega que foi graças ao fio de Ariana que Teseu, depois de vencer o Minotauro, encontra a saída do labirinto e salva as crianças que lá se encontravam perdidas.

Hoje, como no passado, podemos ser salvos pelo fio de Ariana.

Roberto Carneiro
Universidade Católica Portuguesa
  1. Harvard Business Review (1997). 75 Years of Management – Ideas and Practice 1992-1997. Boston: Harvard Business School Publishing Corporation.
  2. Carneiro, R. (2005). “La Educación, el Aprendizaje y el Sentido”, in Encuentro Sentidos de la Educación – Cultivar la Humanidad. Santiago, Chile: OREALC/UNESCO.
  3. Stewart, T. (1999). Capital Intelectual: A Nova Riqueza das Organizações. Lisboa: Ed. Sílabo.
  4. Carneiro, R. (2005). “Informação, Conhecimento e Pessoas”, in Caixa em Revista. Lisboa: CGD, p. 26-29.
  5. Perez, C. (2002). Technological Revolutions and Financial Capital: The Dynamics of Bubbles and Golden Ages. Cheltenham: Edward Elgar.
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