Este artigo está disponível em 19 línguas. Por favor, escolha a sua opçao. "Vivemos em plena era de transição, numa era na qual o domínio do conhecimento e das novas ferramentas técnicas detém um papel essencial. Tanto o futuro dos sistemas educativos como o das empresas dependerá da capacidade de gerir eficazmente esse conhecimento, o que implica uma gestão competente das novas tecnologias."
O conceito de aprendizagem está a ser totalmente repensado com base num modelo diferente, dando origem a um novo tipo de aprendizagem possível a todas as idades, em todos os lugares e durante períodos de tempo indefinidos. Neste artigo, Roberto Carneiro fala da incerteza nascida desta transição, sobretudo devido à utilização das novas tecnologias na criação de conhecimento, e explica como os processos de aprendizagem e de educação, baseados numa inovação permanente graças às novas ferramentas tecnológicas, são a chave da sobrevivência.
A
Harvard Business Review (HBR), revista internacionalmente reconhecida como referência prioritária no estudo dos contextos empresariais, distingue seis etapas sucessivas no percurso que marcou o pensamento gestionário das últimas décadas
1:
- Gestão Científica (~1922 a ~1932)
- Regulação Governamental (~1932 a ~1946)
- Marketing e Diversificação (~1946 a ~ 1960)
- Estratégia e Mudança Social (~1960 a ~ 1972)
- Desafio Competitivo e Reestruturação (~ 1972 a ~ 1988)
- Globalização e Conhecimento (~1988 a ~ ?)
Ora, se o
conhecimento é, consensualmente, o motor actual das economias o seu combustível é a
aprendizagem. Por isso, a
aprendizagem ao longo da vida surge como desafio maior do novo século tanto na vertente das pessoas como na das organizações (
organizações aprendentes).
Acresce que a cadeia de valor
dados-informação-conhecimento- aprendizagem carece de um último elo, aquele que é o efectivo produtor de riqueza (pessoal ou organizacional): a
criação de sentido2.
O conhecimento adquire, pois, novos matizes: é polissémico, rege-se por cânones não fragmentários, é subjectivamente construído ao invés de objectivamente materializado, a sua competitividade reside no corpus tácito de saberes que são fruto da experiência. A
gestão do conhecimento é indiscernível das pessoas que o criam, enriquecem, difundem e agregam valor a partir da
utilidade dos saberes.
A aprendizagem sofre também uma intensa mutação. No que respeita a pessoas a
nova aprendizagem tem lugar em qualquer idade, em qualquer lugar, e em qualquer tempo. No âmbito organizacional a gestão estratégica elege as empresas ditas “biológicas”, isto é aquelas que aprendem por evolução e adaptação (por oposição às organizações “mecânicas” que se limitam a repetir actos do passado). Neste novo figurino empresarial o espírito de coesão, o valor do capital social, as redes de colaboração, as relações de confiança e as comunidades de prática são as alavancas essenciais ao seu desenvolvimento. Para a nova aprendizagem, individual ou organizacional, as pessoas voltam a ocupar o lugar central.
Neste contexto o grande tema de estudo e de debate para o novo século será o da
Gestão de Pessoas e de Comunidades.
Na verdade, as organizações são feitas de pessoas “sentipensantes” (razão e coração, intelecto e emoção) que vivem em
comunidades de propósito e de sentido, uma vez que esta é a verdadeira e principal alavanca de criação de valor, de produção de riqueza e de progresso das nações: só transformamos em conhecimento a informação que integramos em padrões congruentes e só aprendemos verdadeiramente o que faz sentido.
O capital intelectual
3 que se aponta como motor das economias actuais é, por conseguinte, a resultante de uma combinação sábia de capital humano e de capital estrutural, a qual é capaz de potenciar e de gerar valor para a organização. As novas cadeias e redes de valor, fonte maior de riqueza e de competitividade, assentam nos saberes e competências das pessoas, por um lado, e na eficácia das organizações em alinhar esses recursos intangíveis para inovar e diferenciar da concorrência, por outro.
Não espantará, pois, que o governo de Singapura, país que lidera o mundo numa grande maioria dos testes padronizados de conhecimentos promovidos por organizações internacionais, estruture a sua nova estratégia de desenvolvimento em torno de 4 núcleos fundamentais de aprendizagens
4:
- Capital de Conhecimento – o currículo escolar é reduzido em 20% para permitir aos alunos a exploração da resolução de problemas complexos e interedisciplinares.
- Capital de Imaginação – consistindo na promoção de novos ecossistemas “amigos” da inovação e do empreendorismo.
- Capital Emocional – visando a criação de condições de estabilidade de espírito e de tranquilidade capaz de reter os melhores quadros e o melhor capital internacional.
- Capital Social – orientado para a empregabilidade sustentável e a densificação das redes comunitárias de base.
Vivemos um tempo novo, que é simultaneamente complexo e desafiante. Este novo tempo, a exemplo do que acontece desde há pelo menos 250 anos, é catapultado pela tecnologia.
Carlota Pérez escreve com forte sedução sobre as lições a retirar das “regularidades históricas”
5 . A autora revela, a partir da sua investigação sobre as revoluções tecnológicas ocorridas nos últimos 250 anos, que cada novo tempo económico, vem catapultado por saltos tecnológicos que emergem com uma dupla manifestação:
- O surgimento de potentes clusters de novos produtos e serviços, e bem assim de novas redes infraestruturais.
- A afirmação de um novo paradigma tecno-económico caracterizado por: novas tecnologias genéricas e de espectro amplo, novos princípios organizacionais, diferentes modelos de negócio, e infraestruturas facilitadoras de baixo custo (indutoras de saltos quânticos de produtividade).
Segundo Carlota Pérez a humanidade encontra-se, actualmente, no “ponto de viragem” de uma nova revolução tecnológica. Ao período de instalação das Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC) que teve lugar nos últimos 30 anos – com o seu cortejo de “destruição criativa” e de generalização de um novo paradigma social, a Sociedade da Informação e do Conhecimento – pode seguir-se um tempo de implementação e de florescimento do pleno potencial do novo paradigma triunfante. Na análise da investigadora, o período intercalar em que nos encontramos – a “viragem” – seria marcado por instabilidade, incerteza, fim de “bolhas especulativas”, e recomposição institucional.
A confirmar-se esta interpretação, as nossas “vetustas” instituições – como a escola, as universidades, os governos e as próprias empresas – estarão actualmente sujeitas à pressão dos desafios inadiáveis de ajustamento estrutural e de reforma alargada.
A
criação de novidade em matéria de conhecimento e de aprendizagem depende da forma como as pessoas souberem inovar, gerir, trabalhar, comunicar e criar valor com as novas tecnologias.
O e-Learning e o b-Learning são hoje portentosas ferramentas para potenciar o valor das pessoas e para acelerar a aprendizagem e a inovação no seio das organizações. Os novos conhecimentos e as novas aprendizagens, intensamente propiciados pelas novas tecnologias comunicacionais, apresentam-se como o fio condutor que permite encontrar uma saída para a vertigem da mudança que se abate sobre nós.
Por isso, mais do que visões segmentadas da questão, conotadas com esta ou aquela tecnologia, aquilo que emerge é um grande desafio de repensar toda a aprendizagem segundo um diferente paradigma, ou seja, pensar em termos de
New Learning.
Aprendemos na velha mitologia grega que foi graças ao fio de Ariana que Teseu, depois de vencer o Minotauro, encontra a saída do labirinto e salva as crianças que lá se encontravam perdidas.
Hoje, como no passado, podemos ser salvos pelo fio de Ariana.
Roberto Carneiro
Universidade Católica Portuguesa