Que possibilidades educacionais são exequíveis com uma determinada ferramenta? Que ferramenta constitui um suporte adequado para um tipo de modelo de ensino específico? Que ferramenta escolher para que modelo de ensino?
Numa publicação recente [1], examinámos mais de 130 sistemas de gestão de ensino (LMS – Learning Management Systems) e descrevemos as funções de 16 sistemas em pormenor. Numa publicação nova [2], fizemos o seguimento dessas avaliações com um levantamento de mais de 250 sistemas de gestão de conteúdo (CMS – Content Management Systems) e uma descrição detalhada dos 15 produtos mais importantes. Com a ajuda de Marco Kalz, categorizámos este número enorme de CMSs em premissas pedagógicas, usando como o critério crucial a “interactividade”. Por outras palavras, utilizámos o tipo e o número de interacções didácticas.
No que se segue, apresentamos três modelos educacionais e cinco tipos diferentes de sistemas de gestão de conteúdo. Analisamos, também, os modelos de ensino mais adequados a cada sistema de gestão de conteúdo.
Três modelos educacionais
1. Transferir saber (Ensino I) Neste modelo, a origem do saber do aluno baseia-se no saber do professor. O professor sabe o que os alunos precisam de aprender – cabe ao professor transferir este saber ao aluno do modo mais simples possível. O saber transferido é um extraído do professor preparado de forma especial (a preparação didáctica), para que os alunos possam não só absorver o conteúdo rapidamente mas também memorizá-lo a longo prazo. Este modelo tem algumas semelhanças com o behaviorismo, uma teoria de ensino hoje em dia ultrapassada.
2. Adquirir, compilar, juntar saber (Ensino II) Este modelo pressupõe que a aprendizagem é um processo activo, que o aluno tem de planear, rever e reflectir. O próprio ensinando é uma entidade activa na aprendizagem, e este papel activo é uma condição necessária deste processo.
Em Ensino I, o professor não está interessado em controlar ou observar o processo de aprendizagem em si. O que conta são os resultados, enquanto que em Ensino II todo o processo, os passos intermediários, as dificuldades e resultados interinos, são vigiados pelo professor. Em Ensino I, os alunos recebem do professor um feedback positivo ou negativo, enquanto que em Ensino II o professor tenta ajudar o aluno a superar hipóteses erradas, atitudes erradas de aprendizagem, etc., e a melhorar o processo de reflexão para que o aluno adquira um modelo mental consistente do tema em questão. Ensino II assemelha-se ao cognitivismo.
3. Desenvolver, inventar e construir o saber (Ensino III) No modelo Ensino II, todos os problemas e tarefas são apresentados pelo professor. Mas, se queremos que os alunos se deixem ajudar pelos professores, inventem coisas novas, produzam e criem novo saber, temos de proporcionar-lhes um ambiente de aprendizagem especial. E tem de ser um ambiente estimulante, suficientemente complexo, incerto, instável e único no qual os métodos e soluções tradicionais deixam de funcionar.
No modelo Ensino III, tanto o professor como o aluno têm de se emergir numa situação cujos resultados não são pré-determinados. Ambos têm de dominar a situação presente e a diferença entre professor e aluno é que o primeiro possui talvez mais experiência e mais “meta-saber”, ou seja, está melhor equipado para reflectir sobre uma situações complexas (por exemplo, para conceber experiências locais).
O Ensino III está fortemente ligado ao construtivismo.
Cinco tipos diferentes de Sistemas de Gestão de Conteúdo (CMS) Dentro desta motivação pedagógica seleccionámos 5 tipos principais de CMS.
1. O CMS “Puro” Este é o tipo tradicional, e foi também o primeiro a aparecer no mercado. Caracteriza-se por um trabalho entre diferentes tipos de direitos de elaboração de conteúdos multimédia. Distinguimos entre editores-chefe (responsáveis em geral), co-editores (responsáveis por certas áreas, ex. o editor de negócios) e autores (que escrevem os artigos mas não os podem publicar no site sem a aprovação dos editores). Do ponto de vista administrativo, podemos diferenciar entre um editor geral (responsável pelas categorias e funcionalidades do CMS) e um editor gráfico (que desenha os modelos).
Do nosso ponto de vista educacional, estes direitos de elaboração de conteúdos multimédia equivalem a funções como professor, assistente, professor convidado, para o conteúdo, e director e administrador, para as questões de organização. A pessoa a quem o conteúdo é dirigido (o leitor) é, no nosso caso, o ensinando ou aluno. É suficientemente claro que este tipo de CMS representa, do nosso ponto de vista, o modelo de ensino de transferência de saber (Ensino I).
Os seguintes sites são exemplos típicos deste tipo de CMS:
• Mamboserver:
http://www.mamboserver.com/ • OpenCMS:
http://www.opencms.org/ • Plone:
http://plone.org/ • Typo3:
http://typo3.org/ • ZMS:
http://www.zms-publishing.com/ 2. Sistemas de gestão de conteúdos “weblog” “Weblogs são sites compostos por várias contribuições com pedaços de informação por página, normalmente organizada cronologicamente, com a mais recente no topo da página e a mais antiga abaixo…” [19, p. 7]
Graças a esta organização cronológica, os weblogs podem ser utilizados como uma ferramenta orientada para o debate e para a reflexão pessoal. Tem duas funções, importantes num contexto educacional:
• TrackBack: Trata-se de um mecanismo de aviso que permite aos autores estabelecerem ligações entre os seus comentários e um debate na Internet.
• Sindicalização: É uma maneira dos autores “espalharem” os seus conteúdos. Trata-se de um formato especial (RSS = Rich Site Summary ou Really Simple Syndication) que os outros autores podem assinar. Podem inclusive integrar o texto da fonte assinada no seu próprio site.
Os weblogs são, na realidade, ferramentas direccionadas para o debate que têm a capacidade de espalhar o debate por todo o mundo. Os debates nos weblogs, discussões à base de pequenos comentários pessoais (“micro-comentários”), animam o weblog onde se fazem os comentários mas, ao mesmo tempo, suportam uma espécie de meta-cognição no próprio weblog que espalha a discussão por todo o globo. Neste sentido, os weblogs são quase exactamente como o nosso segundo protótipo, Ensino II, mas também, podem ser usados no Ensino I (ou seja, como um CMS tradicional) e até no Ensino III. Por serem tão polivalentes, os weblogs são já chamados “canivetes suíços” do ensino na Internet mas, como vamos ver, há ainda outro – melhor qualificado – candidato para esse título.
Exemplos de weblogs:
• Blogger:
http://www.blogger.com/start • Manila:
http://manila.userland.com/ e Radio
http://radio.userland.com/ • Movable Type:
http://www.movabletype.org/ • pMachine:
http://www.pmachine.com/ • TypePad:
http://www.typepad.com/ 3. CMS orientados para a colaboração (C-CMS ou Groupware) Essencial a estes sistemas é o desenvolvimento comum e a administração dos recursos partilhados. Podemos aqui encontrar uma espécie de interacção protegida de um grupo em particular. Estas interacções não são dirigidas a uma audiência mais alargada. Não existe também nenhuma intenção expressamente anunciada de atingir um objectivo de aprendizagem: os membros deste grupo aprendem concebendo/trabalhando em colaboração. Mesmo se pudesse existir um sistema de diferenciação de direitos de publicação, a aplicação prototípica trata todos os membros em igualdade.
Dentro da nossa estrutura teórica, este tipo de CMS é o melhor para o Ensino III.
Exemplos de sites dentro desta categoria:
• BSCW:
http://bscw.fit.fraunhofer.de/ and
http://www.bscw.de/ • Convea:
http://www.convea.com/ • EGroupware:
http://www.egroupware.org/ • IBM Lotus Notes:
http://www-306.ibm.com/software/lotus/ • PhpGroupware: http://www.phpgroupware.org/
4. Sistema de gestão conteúdo-comunidade-colaboração (C3MS) Os C3MS são os verdadeiros “canivetes suíços” do ensino. Este tipo de CMS permite às comunidades (virtuais) desenvolverem conteúdos de domínios específicos.
Usam mecanismos de colaboração e muitos módulos especializados (ex. quem está on-line, audiência, levantamentos, críticas, citações, etc.) são extremamente orientados para a comunidade. Os C3MS podem funcionar como CMS tradicionais e como weblogs de colaboração. Combinando todas as contribuições num único site, um C3MS pode ser utilizado para construir um repositório de domínios específicos. (Para mais informação acerca deste tipo de CMS de um ponto de vista pedagógico, consulte o excelente artigo de [4]).
O C3MS encaixa-se perfeitamente – como o nome indica – no modelo Ensino III. Como os diferentes módulos podem ser desligados e ligados de novo, pode facilmente ser utilizado nos outros tipo de ensino.
Os seguintes sites são exemplos típicos deste novo tipo de CMS:
PhpNuke:
http://phpnuke.org/ PostNuke:
http://www.postnuke.com/ 5. Sistemas Wiki Os sistemas Wiki viram do avesso a característica central dos CMS – os sistemas de diferenciação dos direitos de publicação dos conteúdos multimédia. O princípio essencial dos Wiki pode ser expresso pela seguinte frase: Qualquer pessoa pode mudar tudo! Atrás deste conceito está – em termos do nosso contexto teorético – a suposição de uma estrutura habermasiana ideal de comunicação orientada para o consentimento. E o que é interessante é que, apesar de esta idealização de Habermas ter sido muitas vezes criticada por académicos contemporâneos, no caso dos Wikis funciona perfeitamente! Veja, por exemplo, a
Wikipédia – uma co-empresa para a criação de uma enciclopédia livre. Este projecto começou em Janeiro de 2001 e tem agora 531 311 artigos em Inglês. Entretanto, a ideia espalhou-se por 93 (!) línguas com pelo menos uma centena de artigos, 22 das quais contêm mais de 10 000 artigos, e por 8 projectos relacionados (Meta-Wiki, Wiktionary, Wikibooks, Wikiquote e Wikisource). E repare: todo este trabalho é feito voluntariamente!
Um CMS-Wiki é um grupo de aplicações (WikiWebs) que utiliza uma linguagem de marcação especial (WikiWords) para o sistema de publicação. A interface é extremamente simples e esta é talvez a razão principal da sua rápida distribuição.
Tal como o Groupware, os Wikis são orientados para a colaboração mas levam esta noção ao limite. Os Wikis ultrapassam as fronteiras de grupos específicos (qualquer pessoa no mundo pode colaborar) e o sistema de direitos de publicação está claramente definido (qualquer pessoa pode escrever, acrescentar, revisar e editar e até apagar qualquer artigo!). Ninguém é dono do artigo que iniciou.
No nosso contexto teorético, os Wikis situam-se no domínio do Ensino III, que é – recorde-se – um ensino não intencional. Todos os diferentes Wikis são ou baseados em diferentes linguagens de programação ou têm características diferentes, modificando o Wiki original.
Exemplos de Wikis:
• Wiki:
http://c2.com/cgi-bin/wiki (o Wiki original)
• Twiki:
http://twiki.org/ (uso empresas)
• Swiki:
http://minnow.cc.gatech.edu/swiki (baseado no sistema de programação Squeak)
• Zwiki:
http://www.zwiki.org/FrontPage (baseado em Zope)
• JSPWiki:
http://www.jspwiki.org/Wiki.jsp (baseado em Java Server Pages)
Conclusões Há muitas ferramentas que podem ser utilizadas como um martelo mas só há um tipo de ferramenta especializada para um tipo específico de tarefa, por exemplo, pregar um prego na parede. E, dependendo do tipo de parede e do tamanho do prego, podemos inclusive utilizar várias modalidades de martelo. No círculo do saber, acrescentamos a ferramenta mais apropriada para a actividade desejada.
O círculo do saber
Por último, lembre-se de que todos estes esquemas são unicamente uma aproximação uma vez que qualquer afirmação pode ser desafiada por um argumento objectivo, subjectivo e social ao mesmo tempo.